A minha primeira vez no Canadá

Essa semana tentei postar uma sequência de vídeos no Instagram como parte do Projeto #CanadaDiversidade que eu participo às segundas-feiras com os meus parceiros @whycanada_, @meu_canada, @vamo_kombina, @canadatche e @nosso_canada. Naquele dia o Instagram estava passando por algumas dificuldades técnicas, e eu não conseguia publicar os meus vídeos nem por decreto. Fiquei horas tentando, me estressando, apagando os poucos que tinham ido, até que acabei desistindo.

Sei que o tema, apesar do duplo sentido, é interessante para quem ainda está na fase de planejamento para mudar para o exterior, pois quando iniciamos a vida em outro país, há uma série de coisas que teremos que fazer pela primeira vez, e muitas vezes, por mais simples que elas sejam, poderão nos trazer um medo ou uma certa ansiedade.

Como aqui tenho a oportunidade de falar de forma muito mais detalhada do que um vídeo no Instagram, poderei até complementar alguns pensamentos que eu não teria colocado no ar no projeto da segunda-feira. Vejam abaixo a lista das coisas que fiz pela primeira vez, e como me senti em cada uma delas:

1 – O primeiro corte de cabelo

Logo que cheguei no Canadá já precisei passar pela experiência de cortar o meu cabelo aqui pela primeira vez. Me recordo que na época eu fiquei entrando nos sites para encontrar algum lugar em que pudesse chegar sem horário marcado. Me lembrei que havia passado perto de um salão lá na montanha, no mesmo plaza em que eu tinha feito o Social Security Number. O salão é daqueles que você chega, passa o seu nome, e o próximo profissional da fila é quem cortará o seu cabelo. Simples assim! Mas eu estava morrendo de medo de não saber explicar como eu queria o meu corte, com medo da profissional ser péssima e deixar meu cabelo todo picotado, enfim, uma coisa que no Brasil era tão simples, eu passei dias adiando a minha ida, porque estava desnecessariamente inseguro.

Expliquei como queria, mostrei através de gestos onde eu gostaria que ela passasse a máquina, falei como queria que ela deixasse a parte de cima, e até mesmo como ela deveria pentear no final. Que alívio!! Saí de lá sem aquele peso nas costas, afinal de contas, tinha conseguido realizar com sucesso uma das coisas que me preocupavam.

Hoje, depois de anos morando aqui, eu corto meu cabelo com um brasileiro. Embora eu não tenha mais nenhum receio de cortar com qualquer outro profissional, gosto do fato de cortar sempre com a mesma pessoa, o que não acontecia naqueles salões em que eu frequentava no início. Sei que essa preocupação é infinitamente maior para as mulheres, mas eu precisava relatar aqui que também fiquei ansioso na primeira vez, e acho isso muito normal.

2- A primeira entrevista em inglês

Eu nunca tinha passado por uma entrevista de empregos em inglês na minha vida. Quando fui para os Estados Unidos em 2005 fazer um intercâmbio, precisei passar por uma ligação telefônica com a família com a qual eu iria morar, mas isso não se compara de forma alguma com uma entrevista profissional.

Logo que cheguei aqui no Canadá, fui chamado para uma entrevista para uma vaga de voluntariado para qual eu havia me candidatado. Como essa vaga não era para um trabalho remunerado, eu fui participar do processo bem tranquilo, afinal, se desse errado, eu não tinha nada a perder.

Creio que ter ido assim bem relaxado ajudou bastante na minha performance. Me senti confortável, as palavras vieram com tranquilidade, consegui falar sobre mim, sobre minha experiência, sobre o que eu estava buscando na minha nova vida aqui no Canadá, enfim, a entrevista fluiu com leveza.

Me lembro que a entrevistadora me perguntou sobre a minha disponibilidade para o voluntariado, e eu, inocente, respondi que por ser estudante internacional, eu poderia trabalhar até 20 horas por semana. Ela arregalou os olhos, assustada, e me disse que não, para voluntários, eles pedem apenas 3 horas por semana, nada mais do que isso, mas me agradeceu muito pela minha dedicação e disponibilidade em ajudar. Mal sabia ela que eu apenas havia confundido o fato de que estudantes internacionais só podem trabalhar (de forma remunerada) um máximo de 20 horas por semana, fora da faculdade. Meu equívoco, no entanto, me ajudou. Dias depois eu fui convidado para uma vaga remunerada nessa mesma empresa. A pessoa que me entrevistou para o voluntariado fez a maior propaganda sobre mim por lá, e eles não pensaram duas vezes em me convidar para essa nova vaga. Nessa segunda entrevista eu já não estava mais tranquilo. Essa sim seria uma grande perda caso eu não conseguisse passar, então, a pressão tinha aumentado consideravelmente.

A entrevista foi realizada pela mesma pessoa com quem eu já havia falado antes, e agora com a responsável pela vaga. Ambas fizeram de tudo para que o ambiente ficasse confortável, mas eu me lembro de travar em algumas falas, não encontrar as palavras adequadas, mas mesmo assim senti que elas estavam me entendendo, e as coisas não estavam tão ruins quanto eu imaginava. O resultado foi positivo, consegui a vaga, e continuo trabalhando lá mesmo depois de tanto tempo.

3- O primeiro dia de aula

Esse aqui não tem jeito. Não conheço nenhum brasileiro que tenha vindo estudar no Canadá que não tenha ficado ansioso no primeiro dia de aula por aqui. Na minha opinião isso é impossível. Estamos em um país com um idioma diferente do nosso, e embora a gente saiba falar, o ambiente acadêmico é muito diferente do que simplesmente falar inglês em uma conversa informal.

Como cheguei aqui no final de Dezembro, os primeiros dias de Janeiro foram muito movimentados, já que o College estava fechado para as festas de final de ano. Assim, logo que o College reabriu, precisei levar meus documentos, fazer a prova de inglês, selecionar a minha grade de aulas, e com isso, eu acabei perdendo o dia da orientação para novos alunos.

Como eu não participei da orientação, meu primeiro dia de aula foi meio tumultuado. Eu não conhecia o college ainda, fiquei confuso para me deslocar de uma sala para a outra, já que o Mohawk College é enorme (hoje em dia está ainda maior do que há 4 anos), e divido em várias alas, que aqui eles chamam de wings. As vezes eu tinha uma aula na wing A, e precisava na sequência ir para a wing H. Levei dias para me localizar. Quando eu me acostumava, acabava o semestre, e a grade de aulas mudava totalmente, mas aí eu já estava muito mais habituado com tudo.

A primeira aula foi mais simples do que eu imaginava. Eu ficava lá pensando: caramba, eu estou entendendo o que a professora fala!!! Esse era, sem dúvidas, um dos meus maiores receios, e posso dizer que superei sem grandes dificuldades. Entender os colegas de sala, no entanto, já não foi tão fácil assim, mas eu já estava feliz pelo fato de entender os professores. Uma coisa de cada vez!!!

Essa sensação do primeiro dia de aula no Mohawk College ficará para sempre na minha memória. Foi uma fase importante da minha vida, que me trouxe frutos depois, então fiz questão de deixar isso registrado aqui no blog, pois sei que muitas outras pessoas também passam por isso.

4- O primeiro jantar na casa de gringos

Não é novidade para ninguém que os Canadenses levam mais tempo do que nós brasileiros para se abrirem para uma amizade sincera e profunda. Ser convidado para frequentar a casa deles, participar de um jantar ou um evento familiar, não é algo que eles costumam te fazer logo no primeiro encontro.

E por aqui, as coisas não foram diferentes disso. O primeiro jantar na casa de gringos que fui convidado, foi de um casal de chineses, que já vivem aqui no Canadá há muitos anos. Embora também seja verdade que algumas culturas são muito fechadas e preferem estar somente entre eles, com esse casal as coisas foram diferentes. Marcaram o jantar, nos convidaram, e inclusive, vieram nos buscar em casa. Tenho que admitir que eu estava com medo de não gostar da comida, de ser introduzido a algo muito diferente e ter dificuldade para comer. Não aconteceu. Até tinha algumas coisas que preferi passar, mas em geral, a comida estava bem saborosa, sem muitas surpresas.

O que me causou um estranhamento, no entanto, não foi a comida, mas sim o rumo da conversa. Durante o jantar, percebi que a conversa estava caminhando para um assunto que me deixou desconfortável, pois eles começaram a falar sobre religião, sobre a igreja que eles participavam, os encontros que eles faziam, e que eu TINHA que ir com eles, pois IRIA me identificar muito. Quem me conhece sabe que eu não gosto de ficar criando discussões desnecessárias, principalmente de assuntos que não levam a um entendimento comum. Resolvi naquele momento deixar a conversa fluir, embora eu estivesse puto da vida, mas não me comprometi com nada. Eu só queria que aquele jantar acabasse logo e eu voltasse para a minha casa.

Felizmente era um dia de semana, então usei a desculpa que precisava voltar cedo e assim que o jantar acabou, vim embora. Não preciso nem dizer que eles nunca mais ouviram falar sobre mim. Não aceitei mais nenhum convite, e aos poucos eles perceberam que eu não queria mais contato. Esse tipo de situação jamais teria acontecido com um canadense nativo. Eles respeitam demais a individualidade de cada um, e assuntos como esse, jamais teriam sido abordados da forma como foi. Eu não problema algum com religião, mas não acho que isso seja algo que você tenha que ficar “esfregando na cara do outro” e tentando dizer que a sua verdade é a única que deve ser aceita. Meu primeiro jantar com os gringos foi meio frustrante, mas ainda bem que depois disso vieram experiências melhores. Graças a Deus!!!!

5- Minha primeira vez cruzando a fronteira

E para encerrar o post falando sobre primeiras vezes, quero deixar aqui registrado uma primeira vez que considero engraçada.

Hamilton fica muito perto da divisa com os Estados Unidos, e logo que comprei o carro aqui no Canadá, resolvi fazer uma visita ao país vizinho e passar o dia por lá.

Passei pela fronteira, tive que estacionar o carro para ver o oficial da imigração, sempre rola aquele medinho na hora, mas assim que fui liberado, voltei para o carro e cruzei a ponte.

Escolhi a fronteira que ia para Buffalo, NY, no entanto, sou daqueles que fazem passeios sem ter antes pesquisado nada sobre o lugar. Cheguei lá em Buffalo e não sabia para onde ir. Tinha desligado a minha internet já que não queria ficar pagando taxas adicionais de deslocamento. Desci do carro, visitei alguns lugares diferentes, tirei umas fotos, e voltei para o carro para procurar algum parque legal por lá. Como estava sem internet, meu GPS do celular não estava funcionando, então mais uma vez me vi perdido por lá. Continuei dirigindo, e quando percebi, estava na ponte de volta para o Canadá, e não tinha mais como retornar. Tive que passar novamente pela fronteira, falar com o oficial da imigração do lado canadense que, por sua vez, ficou espantado que o meu passeio durou pouco mais de 1 HORA. Isso mesmo, atravessei a fronteira e retornei uma hora depois. Expliquei para o oficial que eu tinha ficado perdido, e ele, provavelmente me achando um babaca, me deixou entrar novamente no Canadá. Acabei passando o resto do dia em Niagara Falls pela milésima vez, mas essa minha ida aos Estados Unidos nunca será esquecida.

Depois desse dia, sempre pesquiso um pouco sobre o local antes de visitá-lo. Lição aprendida!!!

Bom, essas são as histórias que tentei contar no Projeto Canadá Diversidade da última semana. Se o texto ficou longo assim, tenho certeza que consegui incluir aqui muito mais detalhes do que eu teria falado nos vídeos, então, acho que a missão foi cumprida.

Para vocês que me acompanham pelo Instagram, não deixem de ver os posts que fazemos todas as segundas-feiras. Preparamos o conteúdo com muito carinho, e contamos sempre com o apoio e participação de todos.

Um abraço, e até a próxima!!!

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